Gastronomia por Roberta Sudbrack
06/02/2008 ..
Carnaval Fanta uva!
Meu carnaval foi verde e rosa como não poderia deixar de ser. Sou mangueirense roxa, ou melhor dizendo, rosa! Fui até a Sapucaí ver a minha Mangueira passar, e aí começou e terminou a minha cota de folia carnavalesca. É das maiores emoções da vida a chegada na Marquês de Sapucaí. Não sei, mas acredito que a energia concentrada nesses dias naquele espaço, seja muito maior – e de melhor qualidade, claro – do que qualquer bomba que algum mal amado possa inventar. Nada além de alegria, camaradagem e emoção, furam aquele bloqueio do bem. Ali dentro, durante aqueles dois dias, a vida faz bem mais sentido.
Depois de ver, pular e vibrar, com a minha Mangueira, me recolhi para refletir e estudar. Na próxima semana lanço a minha coleção 2008, e estou em fase de pesquisas dentro de mim mesma. Nesses momentos tudo me interessa, uma semente, uma casca, pão com mortadela, a lembrança da exposição de Gustave Courbet que vi recentemente na França e que me tirou do sério, as corres da favela da Rocinha quando a noite cai, o passo do gari sambista na Sapucaí, cenas cotidianas da vida, sabores marcantes... Fanta uva!
Mal pude acreditar quando avistei uma Fanta uva de casco e “viva”, passando pela minha frente! Almoçava domingo no Gepeto, restaurante que eu adoro em Vargem Grande, dono da melhor batata frita do planeta. Sobretudo nesses tempos de batata industrializada, quando a única garantia que se tem de comer uma batata frita de verdade, é pedindo a do tipo portuguesa. Descobri isso outro dia quando fazia pesquisas pelos supermercados - é, eu faço isso! Saio desbravando os mais diversos supermercados da redondeza e de longe da redondeza também. Entro, fuço, compro ou não e observo. Não importa se é de uma grande rede, se é de luxo ou dos mais simples, sempre encontro alguma coisa interessante em qualquer um deles. Seja um produto que ninguém mais comercializa, sejam costumes, tipos interessantes ou cenas de um cotidiano muito particular. Numa dessas empreitadas acabei me dando conta de que felizmente ainda não inventaram a batata portuguesa industrializada. Bingo! Fato esse que faz com que os restaurantes sejam obrigados a manipular e preparar esse tipo de “batata Maison”! Espero que ninguém me ouça e tenha a infeliz idéia de produzi-la, pois o mundo não precisa delas!
Enfim, a do Gepeto é de verdade, frita na hora, tipo palito fininha como aquelas que habitam as nossas memórias infantis. E como se não bastasse tem Fanta uva de casco! Não sei porque mas eu imaginava que não existisse mais Fanta uva, tanta coisa boa já se foi...Quando avistei já estava terminando o meu almoço, mas não pude resistir. Chamei a garçonete e pedi discretamente, para não chamar muita atenção dos meus amigos, que imaginei poderiam achar um excesso infantil. E era! O que eu queria era beber a minha Fanta uva e embarcar numa viagem: a hora do recreio no colégio Sévigné em Porto Alegre, comendo o sanduíche de presunto e queijo no pão fininho e sem casca, preparado pela minha avó, que eu sempre encontrava na minha lancheira, com Fanta uva de casco!
Mas não embarquei sozinha nessa, todos tiraram uma casquinha do meu casco e da minha viagem!
Até!
07/02/2008 ..
Circular para o Reino Alegre do Grande Ego!
Pensei em hoje soltar uma circular, como as freiras do meu colégio faziam quando decidiam mudar alguma coisa, e como as que de vez em quando solto no restaurante. Algumas vezes solto a circular, e os cachorros também!
Enfim, a minha circular de hoje teria o seguinte teor:
1. Fica estabelecido que não escreveremos nos dias em que a dura rotina do dia a dia tiver a capacidade de abalar o nosso humor;
2. Não escreveremos no dia em que os nossos fornecedores não cumprirem seus prazos e nos deixarem literalmente na mão, desesperados como Vatel!
3. Não escreveremos no dia em que nossos colaboradores faltarem ao trabalho;
4. Não escreveremos no dia em que a fadiga for maior do que a nossa capacidade de raciocínio;
5. Não escreveremos no dia em que o pão não fermentar;
6. Não escreveremos no dia que o molho que levou 12 horas reduzindo em fogo baixo queimar!
7. Não escreveremos no dia em que a fritadeira que prepara a nossa famosa “batatinha croustillant” pifar!
8. Não escreveremos no dia em o teflon da frigideira que grelha o peixe descascar;
9. Não escreveremos no dia em que a conexão com a Internet for tão lenta quando os nossos cozimentos em baixa temperatura e a tentativa de contato de primeiro grau com o Velox for mais irritante do que todos os itens acima!
10. E por fim, não escreveremos no dia em que qualquer um desses acontecimentos acima, seguidos de alguns outros perfeitamente comuns na vida de um restaurante, nos impeçam de pensar em coisas mais agradáveis como bolo de nada com café coado em coador de pano ou pão com mortadela e coca-cola - ou fanta uva! – de casco!
Mas, como não resisto e sou obstinada, consegui vencer o Velox e aqui estou! Pronto, soltei a circular, logo em seguida vem o Frederico!
Até!
08/02/2008 ..
Detalhes...
Passado o estresse, aqui estamos nós dispostos a não parar de escrever mais. Ainda assim, fica combinado que, quando não der, seja por um dos motivos citados na circular de ontem, seja por mera falta de tempo, seremos compreendidos!
Semana curta, confusa e difícil essa. A boa notícia é que o carnaval já passou, fica liberado assim, o inicio do ano. Seja lá em que setor for, a verdade é que ele só começa depois do carnaval! Na parte que me toca, começa com uma tremenda ressaca, fruto do décimo lugar em que ficou classificada a minha Mangueira nesse carnaval! Acho que o desfile que eu vi, certamente não foi o mesmo que os jurados viram... Mas como eu entendo mesmo é de chuchu e demi-glace, vou abusar do direito de me manter calada, para que nada do que eu fale possa ser usado contra mim.
Agora cá entre nós, tenha dó!
Continuo no meu mergulho solitário e reflexivo em busca da inspiração para a coleção 2008 da casinha laranja à beira do canal. Mas confesso que cada vez mais a linha de pensamento e reflexão que me conduz é a da simplicidade. Não há como se chegar a resultados mais puros e íntegros de outra maneira. Não há como sonhar com uma execução plena em todos os sentidos se não for através dela. Não há como respeitar mais os ingredientes que manipulamos diariamente se não pegarmos essa estrada.
O que precisa ser lembrado é que a simplicidade, por mais incrível que pareça, é extremamente complexa. O que move a simplicidade são palavras como detalhe e dedicação. Essa é a linha tênue que divide as grandes execuções das medíocres, e pode mudar completamente a compreensão em relação ao verdadeiro sentido da palavra: simplicidade. Acima de tudo para se trabalhar com simplicidade é preciso ter humildade e comprometimento. Sem isso, fica impossível trabalhar os detalhes com dedicação!
Até!
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